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Editor: José Trindade



quinta-feira, 10 de março de 2011

Mundo dos Serviços

Por Marcio Pochmann 

(Do Valor Econômico, 10/03/2011)

Na vigência das sociedades agrárias, a ocupação agrícola chegou a representar 4/5 do total dos postos de trabalho. Com a passagem para a sociedade urbano-industrial, a mão de obra no setor secundário das economias (construção civil e manufatura) que conseguiram se industrializar chegou a alcançar quase 2/5 do total da ocupação.



Atualmente, com a sequência da transição para a sociedade pós-industrial, as economias desenvolvidas já se aproximam da concentração de 85% do total dos postos de trabalho somente no setor terciário (serviços e comércio). Com isso, a agropecuária e manufatura terminam por responder apenas com menos de 1/6 do total da ocupação.

Na passagem do século XIX para o século XX, por exemplo, o esvaziamento relativo e absoluto dos postos de trabalho na agropecuária foi acompanhado simultaneamente pelo engrandecimento das vagas abertas com a maior dinâmica na economia urbana (setores secundário e terciário). Os Estados Unidos exemplificam bem esse movimento. No final do século XIX, o setor primário da economia (agropecuária e mineração) respondia por cerca de 35% do total dos postos de trabalho. Cem anos depois, somente 2,2% do total das ocupações encontram-se sob a responsabilidade do setor primário na economia estadunidense.

Em síntese, destaca-se que com apenas 2 milhões de trabalhadores no campo, os Estados Unidos conseguem manter uma das agriculturas mais avançadas e produtivas do mundo. Já a construção civil responde atualmente por 1/3 dos empregos do setor secundário, sendo a manufatura responsável pela absorção de menos de 14 milhões de trabalhadores.

No caso brasileiro, a trajetória tendeu a ser a mesma, porém distinta ao longo do tempo e na intensidade. Por força do atraso de sua industrialização, o Brasil conviveu até a década de 1950 com o setor primário sendo o principal absorvedor de mão de obra. Somente no ano de 1960 os postos de trabalho urbanos tornaram-se majoritários. Nos dias de hoje, o país possui, comparativamente aos Estados Unidos, quase dez vezes mais ocupados em relação ao total dos empregos no setor primário, não obstante a pujança da agropecuária nacional.

Também no setor secundário residem diferenças significativas. De um lado, o Brasil não conseguiu apresentar a mesma importância relativa da manufatura e da construção civil no total da ocupação verificada nos Estados Unidos. A melhor posição ocorreu ao final da década de 1970, com 1/4 de todos os postos de trabalhos situados no setor secundário, ao contrário dos Estados Unidos, que na década de 1920 estiveram próximos de registrar 1/3 da ocupação associada à construção civil e manufatura.

O trabalho imaterial resulta heterogêneo e varia da alta remuneração até a extrema precarização

A partir de 1980, o Brasil passou a perseguir rapidamente o movimento equivalente ao verificado lentamente nos Estados Unidos desde a década de 1920. Ou seja, perda de importância relativa do setor secundário no total da ocupação.

A tendência de expansão dos empregos no setor terciário parece ser comum nos dois países em consideração. Atualmente, os Estados Unidos possuem 5/6 dos empregos nos serviços e comércio, enquanto no Brasil são um pouco mais de 2/3 das ocupações no setor terciário.

Em virtude disso, convém atentar para o fato que o setor terciário da economia não detém dinâmica própria na propulsão quantitativa e qualitativa de suas ocupações. O segmento produtivo (primário e secundário) exerce influência decisiva sobre a quantidade e qualidade dos postos de trabalho no terciário. Isso porque o mundo dos serviços (trabalho imaterial) resulta heterogêneo, comportando tanto postos de trabalho de grande qualidade, com remuneração associada à elevação da qualificação profissional, como os de extrema precarização (baixo rendimento independentemente da qualidade da mão de obra existente).


Os exemplos podem ser obtidos na estrutura ocupacional dos Estados Unidos e do Brasil. Se for ocupação gerada nos setores de serviços de produção e sociais, por exemplo, a remuneração tende a refletir a qualificação da força de trabalho, diferentemente dos empregos nos serviços pessoais e de distribuição, que geralmente não conectam a qualificação profissional com o predomínio da desvalorização do trabalho.

A determinação do mundo dos serviços depende, em síntese, da qualidade e importância da manufatura no interior do sistema econômico. Sem isso, os serviços tendem a expandir muitas vezes sustentados pelo trabalho precário, aprofundando a separação entre ocupações nobres e pobres e demarcando uma estrutura social ainda mais iníqua.

Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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