Espaço de debate, crônica crítica do cotidiano político paraense e de afirmação dos pressupostos de construção de um Pará e Brasil Democrático e Socialista!

Editor: José Trindade



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A questão do salário mínimo

Gilberto de Carvalho e Centrais Sindicais na Mesa de Negociação
A regra estabelecida em 2007 foi de reajuste do salário mínimo conforme a inflação mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB) dos dois anos anteriores. Essa equação foi discutida, na época, pelas Centrais Sindicais e possibilitará, por exemplo, que o ajuste do salário mínimo seja de 14% em 2012. Esses foram os argumentos de Gilberto de Carvalho, ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, para defender o valor de R$ 545,00 para o salário mínimo deste ano.

Disputas a parte, duas coisas a ressaltar: i) a mesa de negociação, conformando o respeito ao debate; ii) os argumentos de ambos os lados são coerentes: os trabalhadores têm direito a reivindicar ganhos reais; porém a perda de parâmetros pode levar a um “jogo de desacertos”, como expressou o ministro.

As Centrais apontam que uma das formas de resolver o impasse seria com a correção da tabela do Imposto de Renda (IR). De fato, desonerar as faixas salariais menores e taxar com alíquotas diferenciadas as maiores rendas é uma solução democrática e de justiça fiscal!

Imagem da semana

A imagem mais expressiva da semana é o Mutirão de limpeza do canal do Caraparu, no Guamá.
O problema dos pontos de alagamento na Região Metropolitana de Belém é de um lado histórico, Belém foi construída sobre rios e alagados, porém o descaso da atual gestão municipal é gravíssimo. Isso além da ausência de política de saneamento, cujos projetos do PAC teriam a perspectiva de atenuar e agora estão parados.
A imagem, contudo tem outro verniz interessante. Lá no mutirão um morador com a camisa histórica do PT, aquela que não é das eleições ou dos “vermelhinhos”, mas dos velhos militantes.
Conferir:  Mutirão no Guamá

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Vale quanto pesa?


Os números da Companhia Vale são eloquentes: as suas atividades se estendem em mais de 30 países, nos cinco continentes. O conglomerado reúne cerca de 60 empresas, emprega 150 mil trabalhadores, possui 9 mil Km de ferrovias, oito portos e várias centrais hidrelétricas.




Vale lembrar, desculpem o trocadilho, que em 1997 a Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada pelo governo FHC. Leiloada a R$ 3,3 bilhões, valor inferior ao lucro de 3 meses de operação e que representava apenas uma fração do patrimônio total da empresa, avaliada em R$ 100 bilhões.

Em 24 de outubro de 2006 a Vale anunciou a incorporação da INCO canadense, a maior mineradora de níquel do mundo, que foi efetivada no decorrer de 2007. Após essa incorporação, o novo conglomerado empresarial CVRD Inco - que mudou oficialmente de nome em novembro de 2007 - tornou-se a 31ª maior empresa do mundo, atingindo um valor de mercado de R$ 298 bilhões, à frente da IBM.

Em 2008 seu valor de mercado foi estimado em 196 bilhões de dólares pela consultoria Economática, perdendo no Brasil apenas para a Petrobras (287 bilhões) e se tornando a 12° maior empresa do mundo. Naquele ano de 2008 a Vale bateu mais um recorde, lucrou US$ 13,3 bilhões e distribuiu US$ 2,75 bilhões aos acionistas, quantia bem superior à gasta com os salários pagos (US$ 1,9 bilhão).




Além desses tradicionais números, cantados em verso e prosa, a Companhia Vale acumula outros não tão alvissareiros: conflitos com os indígenas Karonsi’e na Indonésia, expulsos do seu território pela “player global”; ou com os camponeses moçambicanos na região de Moatize, assentados em condições precárias em terras de baixa fertilidade; ou ainda com os pescadores artesanais da baía de Sepetiba, oeste do Rio de Janeiro, onde o consórcio ThyssenKrupp-Vale está construindo uma usina siderúrgica. Pode-se lembrar ainda, os conflitos com o MST em Parauapebas no sul do Pará.

Para uma matéria crítica e contextualizada em relação a Vale confira:
Vale, a multinacional dos conflitos

Amazônia e Clima

No artigo de Carlos Nobre para o Le Monde Diplomatique Brasil (disponibilizado no link abaixo), intitulado "Por trás da seca na Amazônia", a questão central posta é "se há uma possível savanização da Amazônia”?

O autor esclarece, na matéria publicada no Le Monde Diplomatique de janeiro, que a intensidade da seca na região foi a maior dos últimos 108 anos, período da série histórica que teve início em 1902 e utiliza como parâmetro o “nível do rio Negro no Porto de Manaus”.

As questões levantadas pelo autor são de enorme pertinência, sendo que o foco central refere-se à perda de biodiversidade, seja direta devido a desmatamentos e queimadas, seja indireto por meio de “uma lenta, mas inexorável alteração de ecossistemas”.

A questão derivada da primeira é “o que fazer para evitar a savanização da Amazônia”? A redução do desmatamento já vem ocorrendo, porém 17% da floresta nativa já foram consumidas. Segundo o autor as políticas públicas deveriam estar focadas na meta de “desmatamento zero”. 

O debate e as ações são de enorme importância, entretanto faz-se necessário externar outros aspectos, por exemplo, como a sociedade nacional encara as referidas metas de redução enquanto parte de um esforço de estabelecimento de políticas de desenvolvimento para as populações aqui já estabelecidas.
  
As políticas de desenvolvimento necessárias para esse novo projeto devem ser claramente distintas das políticas encetadas nas décadas de 60/90, porém não há como analisar Amazônia, clima e aquecimento global desconsiderando as precárias condições de vida das populações que aqui habitam.

É necessário um projeto nacional para a Amazônia, porém discutido com as populações amazônicas!  

Confira o artigo no link Le Monde Diplomatique Brasil

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O que está em jogo no Fórum Social Mundial 2011


Por Gustave Massiah e Nathalie Péré-Marzano

As questões do Fórum Social Mundial de Dakar estão organizadas em três grandes temas: a conjuntura global e a crise, a situação dos movimentos sociais e cívicos e o processo do Fórum Social Mundial. O FSM Dakar também será o momento para o debate sobre o caráter incompleto da descolonização e devir de uma nova fase descolonização. No Fórum de Dakar uma outra questão fundamental será a do seu alcance político nas mobilizações sociais e da cidadania. Isso conduz ao problema da expressão política dos movimentos sociais e de sua relação com os governos.

Confira integra no link da Carta Maior: Fórum Social Mundial em Dakar

REFORMA TRIBUTÁRIA: DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E JUSTIÇA FISCAL(1)

Por José Raimundo Barreto Trindade*


Em 2007 tínhamos assumido junto a governadora Ana Júlia o compromisso de gestar as finanças do estado do Pará, aquela altura já tínhamos claro que diversos componentes da estrutura orçamentária governamental, inclusive políticas públicas centrais como educação e saúde, requereriam uma capacidade de financiamento superior àquela que a arrecadação tributária e as transferências da União nos possibilitavam.


A defesa de uma Reforma Tributária não era naquela altura e nem hoje somente componentes discursivos, faz-se imperativo a sociedade paraense, talvez bem mais que a sociedade nacional, a realização de ajustes estruturais no sistema tributário. Consideramos imperativo que a bancada federal do Pará e, especialmente, os deputados do Partido dos Trabalhadores assumam esta bandeira e possam estabelecer, juntamente, com outras bancadas estaduais uma frente em defesa de pontos chaves num processo de Reforma Tributária, tendo como eixos a justiça fiscal e as condições de desenvolvimento econômico do estado do Pará.

O debate posto se torna ainda mais imperioso por conta de que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu em fevereiro de 2010 pela inconstitucionalidade da Lei complementar 062/89 que define os critérios de rateio do Fundo de Participação dos Estados e do DF (FPE), sendo que a referida lei perderá os seus efeitos no dia 31 de dezembro de 2012. Portanto o debate federativo estará posto tanto em termos dos aspectos da legislação tributária, como também dos aspectos de equalização e distribuição dos recursos arrecadados.

Nos últimos vinte anos as relações fiscais federativas se deterioram visivelmente, agravadas pelos seguintes aspectos: a) baixa taxa de crescimento econômico e inexistência de políticas de planejamento do desenvolvimento econômico nacionais; b) estímulo a disputa predatória entre os estados federativos com base na renúncia fiscal; c) incapacidade de negociação de novo ordenamento jurídico tributário entre os entes nacionais e sub-nacionais; d) decorrente do aspecto anterior: fragmentação do sistema tributário e a implementação de legislação complementar que enfraqueceu ainda mais as bases federativas, cujo exemplo mais proeminente e de grandes repercussões para o Estado do Pará foi a Lei Kandir (Lei Complementar 87/96).

Os dois mandatos de FHC apresentaram taxas mínimas de crescimento econômico, um pouco acima de 2%. No primeiro mandato de Lula também não se conseguiu sustentar taxas mais representativas de crescimento atingindo uma média de 2,5%, porém, realizou um forte processo de distribuição de renda através do crescimento da massa salarial, inovações nos instrumentos de créditos, bolsa família e o crescimento dos empregos. As baixas taxas de crescimento reforçaram ao longo desse período a necessidade de elevação da carga tributária federal, vis-à-vis as necessidades de financiamento dos gastos públicos e, principalmente, as metas de superávit primário.

Somente no segundo mandato do presidente Lula observa-se taxas sustentáveis de crescimento econômico que, a despeito da crise de 2009, possibilitou uma média de 4% durante o segundo mandato. Essas melhores taxas de crescimento, aliadas as baixas taxas de inflação, possibilitou alguns ajustes positivos em termos da estrutura tributária, tais como a extinção parcial da cumulatividade da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), uso de forma regulatória do Imposto sobre Operações financeiras (IOF) e redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) quando da crise de 2009, porém os principais componentes de distorção econômica e regressividade tributária permanecem.

Duas iniciativas de reforma do sistema malograram durante o governo Lula. Em 2003 foi aprovada no Congresso Nacional uma proposta muito restrita, basicamente de ajuste fiscal. Em 2008 uma proposta mais ampla e consistente foi encaminhada pelo Governo federal ao Congresso (PEC 233), porém as condições de crise econômica em 2009 e as diversas discordâncias políticas e federativas acabaram por adiar indefinidamente o exame da proposta.

Em termos dos Estados, o ICMS, que é o principal Imposto sobre Valor Agregado, e que no Brasil apresenta um sistema misto de recolhimento, ou seja, é em parte coletado na origem (maior parte) e parcela no destino, a desoneração passou a ser utilizada como mecanismo principal de atração de empresas ou mesmo manutenção de investimentos antigos, acentuando, via renúncia, as perdas de receitas por parte dos entes federados e aprofundando a fragilidade fiscal dos mesmos. Segundo estudos da Secretária Executiva do Ministério da Fazenda (2009), as perdas totais nacionais com a renúncia fiscal remontariam a aproximadamente 25 bilhões de reais nos últimos cinco anos.

O Estado do Pará em termos pontuais foi dos entes federativos mais atingidos pelo impacto da fragmentação do sistema tributário, especificamente a implementação da Lei Kandir, ainda durante o primeiro mandato de FHC, foram mais 10 bilhões de reais no período de 1996 a 2006, implicando na perda por parte do governo estadual de dispor desta receita que poderia, na medida em que assim fosse destinado, alavancar políticas industriais e de desenvolvimento regional. As transferências federais debitadas a desoneração por exportação de produtos semi-elaborados, por mais que importantes, não conseguem cobrir as perdas globais.

Neste sentido, propomos o retorno da tributação das exportações de semi-elaborados, com base em baixa alíquota, que não gere perda de capacidade competitiva, porém possibilite receita aos estados da federação que são exportadores líquidos de produtos primários e semi-elaborados que os capacite a investirem em infra-estrutura, superando o histórico atraso econômico destas regiões da federação.

Vale observar, ainda, que durante os últimos anos o problema se tornou mais agudo por conta do expressivo aumento das exportações e da forma como se processa a desoneração das vendas externas quando a cadeia produtiva se dá em mais de um estado. Como a cobrança do ICMS ocorre na origem, os estados que produzem os insumos arrecadam impostos, enquanto os estados de onde partem as vendas externas são obrigados a ressarcir os exportadores pelos impostos pagos nas etapas anteriores. Há assim importante transferência interestadual de recursos não devidamente captada e compensada pela atual redação da Lei Kandir, o que tem levado alguns estados a recusarem o ressarcimento dos exportadores. 

Este é um dos principais problemas tributário do Estado do Pará. Para entendê-lo basta olhar a balança comercial paraense. Em 2009, fomos o segundo maior exportador líquido da União, ou seja, exportamos, aproximadamente, 8,3 bilhões de dólares e importamos dez vezes menos, ou seja, aproximadamente, 794 milhões de dólares. Devemos pesar junto ao Governo Federal que essa imensa capacidade de exportação líquida nos leva a reter um gigantesco saldo credor de crédito exportação de ICMS, pois somos o último elo (e mais frágil) da cadeia de exportação, na medida em que toda produção mineral e madeireira paraense destinada à exportação não estabelece ganhos na forma de ICMS e, principalmente, temos que creditar o ICMS das empresas exportadoras.


Nos próximos textos definimos outros elementos propositivos em termos da Reforma Tributária, inclusive em termos dos aspectos referentes a partilha de recursos federativos.


Artigos correlatos:


Abrindo a Caixa Preta Le Monde Diplomatique Brasil

Tributação e Desigualdade Le Monde Diplomatique Brasil

Justiça Fiscal é uma decisão política Le Monde Diplomatique Brasil



* Professor do Departamento de Economia da UFPA, ex-Secretário de Fazenda do Estado do Pará e editor do PD13.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Olhar do PD13 sobre os Jornalões Locais




Um dos jornalões locais resolveu chamar a cena um velho e permanente figurão da elite paraense e que durante quatro décadas serviu bem os interesses dos setores mais conservadores da sociedade nacional. O ex-governador biônico e coronel reformado Passarinho. Do alto dos seus 91 anos, consegue olhar de forma coerente aos interesses da direita brasileira e o quanto o PSDB deve caminhar para um discurso mais contundente e, portanto, mais radicalizado ideologicamente.


Para além de pérolas tipo “ditadura legal” e a queixa quanto ao papel atual da UNE (União nacional dos Estudantes), o ex-coronel evidencia a preocupação já manifesta por outros próceres do udenismo nacional: a construção imediata da estratégia de combate ao governo Dilma.

Não poucos articulistas de diversos órgãos do “quarto poder” midiático têm reforçado a necessidade do PSDB e quejandos fecharem nomes e traçarem uma linha de ataque (programática?) mais verossímil. Alberto Almeida, um desses novos ideólogos do udenismo renascido, comunga com o ex-coronel a percepção de uma oposição acéfala, o que segundo Almeida deveria ser buscado no discurso radicalizado da “privatização, aumento do teto para o pagamento do ensino privado, menos impostos”, conferir matéria no Valor Econômico: http://www.valoronline.com.br/

Cabe ao PT e aos setores da sociedade brasileira que querem avançar na construção de um Brasil enquanto nação cidadã se contrapor ao discurso elitista, cuja tônica é a solução via mercado, inclusive das nossas enormes desigualdades sociais.

A defesa do governo Dilma deve ser acompanhado da defesa de uma linha programática que aprofunde as reformas de interesse popular, especialmente uma reforma tributária anti-regressiva, que torne a carga tributária menor sobre os setores populares e gravame mais intensamente as maiores rendas e tribute a riqueza. Do mesmo modo a defesa intransigente da agricultura familiar e o estabelecimento de metas mais ousadas para os assentamentos de reforma agrária. Assim como a aprovação no Congresso nacional do Plano Nacional de Educação com a atribuição de penalização para o não cumprimento das metas estabelecidas. Esses são somente alguns pontos que, com certeza, não agradam em nada aqueles que temem o aprofundamento da democratização e socialização do Estado no Brasil.






Outra entrevista, em outro jornalão, merece destaque: com o Ministro Alexandre Padilha da Saúde. Vale aqui fazer referência que no último dia 13 de janeiro o PT organizou jantar com o referido ministro e diversos dos temas abordados na entrevista com a jornalista Rita Soares, foram tratados no jantar no Hotel Regente.




Algumas impressões: a área de saúde irá caminhar no governo Dilma para uma direção central e oportuna: ao invés de tratar da doença, se tratará das causas que provocam as doenças.

No caso brasileiro prevenção é sinônimo de política sanitária, o que o ministro tem bastante conhecimento, pois é área de especialização acadêmica do mesmo. Política sanitária, diga-se de passagem, que durante muitos anos o Brasil cultivou e que nas duas últimas décadas do século XX foi desprezada, todos se recordam da extinção da antiga SUCAM no triste governo Collor e o impacto que isso gerou. No período FHC nenhuma melhora, a ausência de política preventiva e sanitária foi a tônica, por mais que, a bem da verdade, a política referente ao combate a AIDS foi inovador e importante.

O Ministro ressalta aspecto de grande importância: a necessidade das prefeituras estarem capacitadas para receberem e gestarem recursos federais, inclusive na etapa primária de elaboração de projetos. A ação coordenada entre União, Estado e Municípios foi aspecto inovador estabelecido durante o governo Ana Júlia, porém, como bem ressalta Padilha parece que não adianta somente fazer um bom governo, as relações políticas muitas vezes criam barreiras mesmo para gestões inovadoras.