Espaço de debate, crônica crítica do cotidiano político paraense e de afirmação dos pressupostos de construção de um Pará e Brasil Democrático e Socialista!

Editor: José Trindade



sexta-feira, 11 de março de 2011

II GINCANA PD13

CONCORRA AOS PRÊMIOS NO PD13

Estamos oferecendo novos prêmios aos nossos visitantes, seguidores e comentadores.
O objetivo é estimular novos seguidores, colaboradores e comentadores do blog.
Nesta Segunda Gincana os brindes deixam de ser mais técnicos e passam a ser mais “literários” e “musicais” como muitos solicitaram.
Divirtam-se e concorram!

Regras

As regras são bem simples: cada um dos três prêmios descritos abaixo requisitam uma quantidade de pontos acumulados, os primeiros colaboradores que alcançarem os pontos acumulados receberam os prêmios, além de citação de nome e imagem.

As requisições de pontos são feitas via o e-mail do blog: propostademocratica@gmail.com.

Obtenção de pontos acumulados:
1.       Para cada novo seguidor: acumula dez pontos.
2.       Para cada texto ou artigo proposto ao editor: acumula cinco pontos.
3.       Para cada comentário identificado: acumula dois pontos.
Prazo desta promoção: 11/03/11 a 11/04/11.

Prêmios:


    1.       CD CHICO BUARQUE: CALABAR. Abril Coleções. São Paulo, 2010.
Obra de 1973, trás, entre outras, “Fado Tropical”, uma das poesias mais estilizadas do autor.
Excelente discografia preparada pela Editora Abril.

Federalismo: uma introdução. George Anderson. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2009, 116ps. Obra de referência para o importante debate sobre o federalismo, sendo Anderson um dos principais especialistas no assunto.

Pontos necessários a serem acumulados: 75.



2.Romance: O clube do filme. David Gilmour. Rio de Janeiro: Intríseca, 2009.
“É um relato sincero sobre como é difícil crescer, como é difícil ver alguém crescer e como no meio da raiva e da desordem de uma família não há nada tão bem vindo quanto um filme” (The New York Times).

CD CHICO BUARQUE: PARATODOS. Abril Coleções. São Paulo, 2010.
Obra de 1993, contendo, entre outras, Pivete e Piano na Mangueira.
Excelente discografia preparada pela Editora Abril.



Pontos necessários a serem acumulados: 75.

A totalização de pontos será divulgada semanalmente no quadro  Gincana PD13!

quinta-feira, 10 de março de 2011

De Sampa a Belém!

A imagem é de manifestação na capital paulista contrária ao aumento da passagem de ônibus.

O boneco em chamas é de Kassab, atual DEM, futuro sabe-se lá! 

E em Belém...

Para Leitura da Carta Maior


Michael Moore: "Fomos vítimas de um golpe de Estado financeiro"
Para nós, admitir que deixamos um pequeno grupo roubar a riqueza que faz andar nossa economia, é o mesmo que admitir que aceitamos a ideia de que entregamos sem luta a nossa democracia à elite. Wall Street, os bancos, os 500 da revista Fortune governam hoje a República – e, até o mês passado, todos nós, os milhões de norte-americanos, nos sentíamos impotentes, sem saber o que fazer. Ninguém saiu às ruas. Até que...começou! Em Wisconsin! O artigo é de Michael Moore.
Conferir: Carta Maior

Chaves do poder e da liberdade feminina


Por Eliana Cardoso
(Do Valor Econômico

Entre a afegã coberta pela burca no mercado de Cabul e a brasileira exposta pelo fio dental na praia, existem bilhões de mulheres, cada uma delas fruto de diferentes tradições e lutas pessoais. O lugar do sexo frágil no Iraque contrasta com a posição da mulher nos países nórdicos. Fotos e relatos das condenações de adúlteras à morte por apedrejamento dão testemunho da sujeição da mulher ao poder dos homens em certas paragens. Por outro lado, as mulheres estão passando na frente dos homens nos Estados Unidos.

Segundo o censo americano, a mulher tem hoje uma renda maior do que a do marido entre 22% dos casais com mais de 30 anos. E as mulheres com menos de 30 anos ganham, em média, mais do que os homens da mesma idade, nas 150 maiores cidades dos EUA. Elas já são mais numerosas do que os homens entre os estudantes se graduando nas universidades americanas. E, dizem os demógrafos, a tendência deve acentuar-se.

Aposto que essa moda vai pegar no Brasil. Em alguns círculos da nossa sociedade, as mulheres já gozam das mesmas oportunidades e direitos que os homens, convivendo com eles em pé de igualdade. Para minha neta, as reivindicações da revolta feminista no mundo ocidental são história. Sim. História, mas história recente, ainda viva na memória da minha geração.

Meu pai cultivava amigos entre políticos eruditos, acadêmicos e outros sabichões. Aos domingos, eles se sentavam num canto da varanda, olhavam as montanhas e conversavam. Sobre política. A vida em outros países. A perspectiva econômica...

Minha mãe e tias sentavam-se no canto oposto e também conversavam. Queixavam-se das empregadas e cochichavam segredos que não eram para ouvidos infantis. Eu me movia entre os dois grupos e me dava conta das diferenças. Naquela época, a vida dos homens me pareceu melhor do que a das mulheres.

Alguns anos mais tarde, dois livros - "O Segundo Sexo", de Simone de Beauvoir, e "Um Teto Todo Seu", de Virginia Woolf - vieram confirmar minha suspeita de que, se as mulheres estudassem, poderiam conquistar a independência que até então tinha sido apanágio dos homens.

"O Segundo Sexo" só conheceu o sucesso depois de 1970, embora tivesse sido publicado em 1949. Para mostrar que a sujeição feminina não se deve à biologia, mas é um fenômeno cultural, o livro de Simone de Beauvoir adota uma perspectiva histórica e se apoia tanto em experiências vividas pela autora quanto no seu poder de reflexão e enorme erudição. Embora teórico na forma, o livro usa montanhas de exemplos concretos e oferece conclusões realistas. Pelo trabalho a mulher já atravessou boa parte da distância que a separava do homem, diz Simone de Beauvoir. E é o trabalho que tem o poder de lhe garantir a liberdade.

A ênfase de Beauvoir é sobre as ideias e ela parece dar pouca importância ao estilo. Talvez seja por isso que não me passa pela cabeça reler aquele tijolão cheio de sabedoria. Mas "Um Teto Todo Seu", publicado pela primeira vez em 1929, é muito mais do que um ícone da literatura feminista e por isso, na semana passada, o reli cheia de prazer.

Seria muito pouco dizer que Virginia Woolf explora o papel do dinheiro na produção de narrativas por mulheres. O longo ensaio combina o talento da romancista ao poder de seus argumentos e retórica na discussão do caráter feminino, da ficção produzida por mulheres e da ficção criada pelos homens sobre as mulheres.

Escrito na época em que a mulher da Inglaterra acabara de conquistar o direito ao voto e à propriedade, o livro traz a marca de seu tempo e coloca a ênfase no dinheiro (uma herança, por exemplo, da qual você possa dispor a seu bel-prazer), antes do que no trabalho, como o caminho para a liberdade. Entretanto, a ênfase na educação como chave da independência não poderia ser mais atual.

Como as mulheres no livro de Woolf, minha mãe teve seu acesso à universidade impedido. Meu avô acreditava que mulher não devia encher a cabeça de caraminholas, mas preparar-se para cuidar do marido e dos filhos. Mamãe, entretanto, foi uma autodidata que entendeu a importância da educação formal e se empenhou para que as cinco filhas se graduassem.

Em "Um Teto Todo Seu" (que minha mãe adorava), Woolf inventa para si um caráter ficcional e uma universidade imaginária. A personagem - expulsa do gramado, atormentada pela incongruência entre o que vê e o que sente e cheia de perguntas - retrata a pessoa cuja aparente falta de "savoir-faire" apenas esconde qualidades excepcionais. Ao seguir os passos de Lamb (o ensaísta inglês), ela se vê barrada na entrada da biblioteca e se torna a representante de todas as mulheres barradas da educação até recentemente. E, a partir da comparação criativa entre duas refeições, Woolf constrói o argumento de que o dinheiro e a ficção estão relacionados.

Com ironia e humor descreve sua visita ao Museu Britânico, onde examina a "História da Inglaterra" de George Trevelyan. Move-se em seguida para sua casa. Essa constante mudança de ambientes - da beirada do rio onde a heroína se encontra no começo do texto à universidade, à biblioteca e à própria casa - dá ao ensaio uma estrutura ficcional.

A análise também se move da discussão divertida da "História da Inglaterra" para uma resenha das romancistas inglesas do século XIX e a comparação das representações ficcionais das grandes figuras femininas na tragédia grega e em Shakespeare com as mulheres que apanham dos maridos na vida real.

Um dos pontos altos do ensaio é a especulação do que teria sido a vida da irmã de Shakespeare, se ela tivesse existido e nascido com o mesmo talento do irmão. "Qualquer mulher nascida com um grande talento no século XVI teria certamente enlouquecido, se matado com um tiro, ou terminado seus dias em algum chalé isolado, fora da cidade, meio bruxa, meio feiticeira, temida e ridicularizada. Pois não é preciso muito conhecimento de psicologia para se ter certeza de que uma jovem altamente dotada que tentasse usar sua veia poética teria sido tão contrariada e impedida pelas outras pessoas, tão torturada e dilacerada pelos próprios instintos conflitantes, que teria decerto perdido a saúde física e mental." E daí Virginia Woolf expande as dificuldades enfrentadas pelas mulheres ao lembrar Aphra Behn - prolífica dramaturga inglesa do século XVII, considerada imoral ao assumir profissionalmente o trabalho de escritora.

Virginia Woolf coloca de lado as verdades universais (como quimeras irrelevantes). Ironiza o ponto de vista tradicional e machista. Invoca opiniões. Mistura escritores (como Jane Austen, George Eliot e Charlotte Brontë) com personagens inventadas (como Mary Beton, Mary Seton, a irmã de Shakespeare, o Professor Von X e Mary Carmichael). E convence o leitor de forma magistral.

"Um Teto Todo Seu" sugere que a igualdade dos sexos em áreas ocupacionais, por exemplo, não pode mudar a percepção das diferenças entre os sexos. Dinheiro é fundamental, mas igualmente importante é uma mudança de atitude: "É impensado condená-las ou rir delas quando buscam fazer mais ou aprender mais do que os costumes declararam ser necessário para seu sexo".

E continua em outro trecho: "A maior das liberdades é a liberdade de pensar. A melhor maneira é observar o mundo em torno de nós.[...] Aquele prédio, por exemplo, gosto dele ou não? E aquele quadro, é belo ou não? Será esse, em minha opinião, um bom ou um mau livro?"

O último capítulo reforça o argumento. Aqui, a autora defende a mentalidade andrógina - como a de Shakespeare, Keats e Sterne e Cowper e Lamb e Coleridge - para homens e mulheres: "É fatal, para quem quer que escreva, pensar em seu sexo. É fatal ser um homem ou uma mulher, pura e simplesmente; é preciso ser masculinamente feminina ou femininamente masculino".

O tom de conversa do ensaio é central na entrega da mensagem. Sua forma é tão importante quanto seu conteúdo: o texto, ele mesmo - com seu humor, ironia, brincadeiras e o poder de suas metáforas -, constitui a prova de que a mulher com dinheiro e acesso à educação (como teve Virginia Woolf) pode produzir narrativa da melhor qualidade. Se você ainda não leu "A Room of One's Own", está na hora. Mesmo que acredite que papo feminista é coisa do passado.

Eliana Cardoso, economista, escreve para o Valor Econômico no espaço Eu & Fim de Semana

Mundo dos Serviços

Por Marcio Pochmann 

(Do Valor Econômico, 10/03/2011)

Na vigência das sociedades agrárias, a ocupação agrícola chegou a representar 4/5 do total dos postos de trabalho. Com a passagem para a sociedade urbano-industrial, a mão de obra no setor secundário das economias (construção civil e manufatura) que conseguiram se industrializar chegou a alcançar quase 2/5 do total da ocupação.



Atualmente, com a sequência da transição para a sociedade pós-industrial, as economias desenvolvidas já se aproximam da concentração de 85% do total dos postos de trabalho somente no setor terciário (serviços e comércio). Com isso, a agropecuária e manufatura terminam por responder apenas com menos de 1/6 do total da ocupação.

Na passagem do século XIX para o século XX, por exemplo, o esvaziamento relativo e absoluto dos postos de trabalho na agropecuária foi acompanhado simultaneamente pelo engrandecimento das vagas abertas com a maior dinâmica na economia urbana (setores secundário e terciário). Os Estados Unidos exemplificam bem esse movimento. No final do século XIX, o setor primário da economia (agropecuária e mineração) respondia por cerca de 35% do total dos postos de trabalho. Cem anos depois, somente 2,2% do total das ocupações encontram-se sob a responsabilidade do setor primário na economia estadunidense.

Em síntese, destaca-se que com apenas 2 milhões de trabalhadores no campo, os Estados Unidos conseguem manter uma das agriculturas mais avançadas e produtivas do mundo. Já a construção civil responde atualmente por 1/3 dos empregos do setor secundário, sendo a manufatura responsável pela absorção de menos de 14 milhões de trabalhadores.

No caso brasileiro, a trajetória tendeu a ser a mesma, porém distinta ao longo do tempo e na intensidade. Por força do atraso de sua industrialização, o Brasil conviveu até a década de 1950 com o setor primário sendo o principal absorvedor de mão de obra. Somente no ano de 1960 os postos de trabalho urbanos tornaram-se majoritários. Nos dias de hoje, o país possui, comparativamente aos Estados Unidos, quase dez vezes mais ocupados em relação ao total dos empregos no setor primário, não obstante a pujança da agropecuária nacional.

Também no setor secundário residem diferenças significativas. De um lado, o Brasil não conseguiu apresentar a mesma importância relativa da manufatura e da construção civil no total da ocupação verificada nos Estados Unidos. A melhor posição ocorreu ao final da década de 1970, com 1/4 de todos os postos de trabalhos situados no setor secundário, ao contrário dos Estados Unidos, que na década de 1920 estiveram próximos de registrar 1/3 da ocupação associada à construção civil e manufatura.

O trabalho imaterial resulta heterogêneo e varia da alta remuneração até a extrema precarização

A partir de 1980, o Brasil passou a perseguir rapidamente o movimento equivalente ao verificado lentamente nos Estados Unidos desde a década de 1920. Ou seja, perda de importância relativa do setor secundário no total da ocupação.

A tendência de expansão dos empregos no setor terciário parece ser comum nos dois países em consideração. Atualmente, os Estados Unidos possuem 5/6 dos empregos nos serviços e comércio, enquanto no Brasil são um pouco mais de 2/3 das ocupações no setor terciário.

Em virtude disso, convém atentar para o fato que o setor terciário da economia não detém dinâmica própria na propulsão quantitativa e qualitativa de suas ocupações. O segmento produtivo (primário e secundário) exerce influência decisiva sobre a quantidade e qualidade dos postos de trabalho no terciário. Isso porque o mundo dos serviços (trabalho imaterial) resulta heterogêneo, comportando tanto postos de trabalho de grande qualidade, com remuneração associada à elevação da qualificação profissional, como os de extrema precarização (baixo rendimento independentemente da qualidade da mão de obra existente).


Os exemplos podem ser obtidos na estrutura ocupacional dos Estados Unidos e do Brasil. Se for ocupação gerada nos setores de serviços de produção e sociais, por exemplo, a remuneração tende a refletir a qualificação da força de trabalho, diferentemente dos empregos nos serviços pessoais e de distribuição, que geralmente não conectam a qualificação profissional com o predomínio da desvalorização do trabalho.

A determinação do mundo dos serviços depende, em síntese, da qualidade e importância da manufatura no interior do sistema econômico. Sem isso, os serviços tendem a expandir muitas vezes sustentados pelo trabalho precário, aprofundando a separação entre ocupações nobres e pobres e demarcando uma estrutura social ainda mais iníqua.

Marcio Pochmann é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

segunda-feira, 7 de março de 2011

HOMENAGEM EM POUCAS ESTROFES


Por Zé Lins

Metade do mundo,
Dores inteiras,
Saudades veladas,
Criação do ato de amar!

Nomes cantados,
Forças encantadas,
Estrofes expostas entre amor e ódio.
Serena palavra da metade do mundo.

Divaga esses versos,
Sobre nomes diversos:
É claridade do dia,
Clamor do entardecer,
Suavidade no anoitecer.

Metade do mundo que responde por outra,
Bendita Mulher da conta do tempo
Que anuncia o futuro.

HOMENAGEM E ANÁLISE CRITICA NO DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES[1]


Por José Trindade

O oito de março deste ano ocorre em pleno carnaval, confluindo dois momentos importantes para brasileiras e brasileiros: a alegria dos festejos de Momo e a comemoração da luta permanente das Mulheres pela igualdade de direitos entre os gêneros.

A sociedade brasileira passa por alterações extremamente sensíveis nas últimas décadas, sendo que essas mudanças são de grande impacto nas relações de gênero e na própria participação das mulheres na divisão social do trabalho. Vamos resumir algumas dessas alterações com vistas a dar destaque no aspecto central no que diz respeito ao novo e velho papel das mulheres.

Estudo do Ipea publicado em 2010 intitulado “Desiguais responsabilidades familiares de Homens e Mulheres”, tendo como fonte de dados a Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (PNAD) do IBGE de 2008, aponta três alterações importantes: primeiramente no âmbito da família, os núcleos familiares estão cada vez menores, sendo que “1992, a taxa de fecundidade total era de 2,8 filhos por mulher; em 2008 era de somente 1,8”, a tendência inclusive é de permanecer a redução, o que faz com que o arranjo familiar típico de casal com filhos venha perdendo importância. Ainda no âmbito familiar deve-se destacar que cada vez mais mulheres são identificadas como principais responsáveis pela família: “em 1993, 22,3% dos arranjos familiares eram chefiados por mulheres; em 2008, chegou-se a 35%”.

Um segundo conjunto de alterações sociais refere-se à concentração populacional e o processo de urbanização. A taxa de urbanização alcançou 83,8% em 2008, com as regiões metropolitanas concentrando quase 30% dos brasileiros. As repercussões desse processo se reflete, também, nas responsabilidades familiares e na crescente monetização das condições de vida, o que determina a participação de crescente número de membros familiares no mercado de trabalho para poder sustentar de forma básica o núcleo familiar.

A terceira alteração refere-se ao próprio processo de inserção feminina no mercado de trabalho. Neste aspecto duas mudanças sensíveis: a participação é crescente, de tal forma que “em 1998, 52,8% das brasileiras com 15 anos ou mais estavam ocupadas ou à procura de emprego, em 2008 já eram 57,6% as que participavam do mercado de trabalho”. Outra alteração refere-se a qualificação feminina, no nível superior para cada 100 alunos havia 133 alunas no ano de 2008.

Esse conjunto de aspectos sugerem as contradições de gênero estejam aos poucos convergindo para novas disputas e novos pontos de contradição. Em parte de fato a maior participação no mercado de trabalho impôs condições de maior respeito social e, também, maior poder político.

As contradições centrais passaram a se dar no nível da forma de inserção no mercado de trabalho e nas diferenças de remuneração. As mulheres trabalham proporcionalmente mais em posições precarizadas, segundo os dados da PNAD, “em 2008, 42,1% das mulheres ocupadas com 15 anos ou mais estavam em ocupações consideradas precárias. Eram empregadas sem carteira (13,7%), trabalhadoras domésticas (15,8%), trabalhadoras sem remuneração (6,3%), trabalhadoras na produção para o próprio consumo ou na construção para o próprio uso (6,3%)”.

Do mesmo modo, sob o ponto de vista da remuneração, o quadro é deveras desvantajoso para elas, vis-à-vis eles: em 2002, elas recebiam 62,6% da renda deles, já em 2008 chegaram a 65,5%, como pondera o estudo do Ipea, por mais que tenha havido melhoras, entretanto “caso não sejam adotadas ações especificamente voltadas para enfrentar as desigualdades de gênero, a equiparação não será alcançada nas próximas décadas”.

Além das contradições internas ao mercado de trabalho permanece a contradição central da dupla jornada: realização das atividades domésticas paralelas às ocupações externas.  As atividades domésticas são, por assim dizer, quase convencionalmente atividade de gênero feminino. Mesmo com as enormes alterações havidas esse aspecto pouco se alterou.
Como analisam os autores do texto citado existe um agravamento desse processo, na medida em que a participação das mulheres mais escolarizadas no mercado de trabalho e possui renda familiar suficiente “delegue o trabalho doméstico a outra mulher”, em regime remunerado, ou de favores.

Os dados da PNAD citados no estudo do Ipea denotam essa contradição “das 16,5 milhões de mulheres ocupadas em posições de má qualidade em 2008, 6,2 milhões eram trabalhadoras domésticas. Esta é a ocupação que mais emprega brasileiras na atualidade. Em termos absolutos, vem crescendo nos últimos anos: em 1998, eram 4,7 milhões de trabalhadoras domésticas”.

Os dados apresentados reforçam a necessidade de políticas públicas, ação cível da sociedade como um todo, inclusive empresarial, que possa fortalecer as alterações positivas e reverter o quadro de negatividade e contradições ainda existentes nas relações de gênero, possibilitando “uma inserção mais democrática para homens e mulheres nos diferentes espaços da sociedade”.




[1] Nos apoiamos no artigo “Desiguais responsabilidades familiares de Homens e Mulheres”, publicado no livro “Perspectivas da Política Social no Brasil” pelo Ipea em 2010.