Espaço de debate, crônica crítica do cotidiano político paraense e de afirmação dos pressupostos de construção de um Pará e Brasil Democrático e Socialista!

Editor: José Trindade



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

RETOMAR O DEBATE DEMOCRÁTICO RADICAL


EDITORIAL

O Proposta Democrática esteve nestes últimos oito meses sem postagens. A justificativa, até onde é possível justificar, esteve por conta das tarefas que o editor do blog assumiu e se comprometeu nesse período. Nos últimos meses, lecionamos em nove turmas da UFPA e publicamos artigos em diversos periódicos nacionais, sendo os mais influentes: a Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política (http://goo.gl/Tsr7X); a Revista Econômica do Programa de Pós-graduação em Economia da Universidade Federal Fluminense (http://goo.gl/X8tdF); a Revistas do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (http://goo.gl/I3tV4). Passamos a editar os “Cadernos CEPEC” (http://goo.gl/dMzDo), working papers do Programa de Pós-graduação em Economia da UFPA.

Bem, considero que não interessa aos leitores do PD13 estes motivos “funcionais”. Entretanto fica a pergunta: por que voltar a postar corriqueiramente no PD13? A resposta é singela: “navegar é preciso, viver não é preciso”, sendo que o poeta (Fernando Pessoa) alertava para a urgência do viver, mesmo com suas incertezas, daí a necessidade de se navegar. Considero que mais do que nunca se faz necessário as mais diversas, mesmo que tímidas, porém formas de expressão democrática que ensejem o debate critico ao capitalismo e, principalmente, dispute, mesmo que acanhadamente, o espectro ideológico, cada vez mais cretino, imposto pela grande mídia e pela elite ululante, a todos nós.

Vale observar, ainda, que o Brasil dos últimos dez anos buscou construir ou “germinar” um padrão diferenciado em relação ao seu histórico formato social excludente e ambientalmente degradador. Os governos Lula e Dilma ao combinarem politicas macroeconômicas gradualistas, com políticas sociais ousadas iniciaram processo tímido, mas importante, de desconcentração da renda, com o uso, principalmente, de políticas fortes de transferência de renda e recuperação do salário mínimo em termos de ganhos reais aos trabalhadores.

Esses avanços ainda não estão consolidados, não nos enganemos que um novo modelo ainda não foi estruturado, somente algumas sementes de outro padrão foram semeadas, a capacidade dessas sementes germinarem e aflorarem estão na dependência dos próximos passos da sociedade brasileira. 

No último ano, uma série de medidas econômicas e sociais foram estabelecidas pelo governo Dilma, alterando padrão que tinha permanecido mesmo durante o segundo governo Lula: i) a domesticação da taxa de juros, possibilitando que os juros médios aplicados as operações de crédito, seja para uso pessoal, seja empresarial, fossem os menores dos últimos trinta anos; ii) o controle sobre a relação entre a moeda nacional (real) e a moeda estadunidense (dólar), algo importante para se pensar um mínimo de proteção a indústria nacional; iii) uma ousada política tarifária referente a energia, com repercussões sobre os custos das empresas e sobre as contas domiciliares da grande maioria dos brasileiros; iv) uma nova política educacional, que mesmo ainda somente ensaiada, já se constitui ponto central para defendermos e aprofundarmos nos próximos anos.

Queremos, portanto, ressaltar que nosso retorno tem o objetivo da pequena contribuição: debatendo e criticando, analisando e informando, tentando fazer o que o poeta alemão Brecht chamava a atenção: “a política são muitos atos de discordância e muitos de aceitação, mas todos de encantamento pelo futuro e pela impossível mudança.”

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Risco geopolítico


Por Carlos Lessa

Poucas coisas, para mim, são mais satisfatórias do que ler um artigo que gostaria de haver escrito. Reinaldo Gonçalves publicou no número 31 da Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política um artigo que alcunha de "nacional-desenvolvimentismo às avessas", a trajetória econômica do Brasil no novo milênio. Sintetiza nacional-desenvolvimentismo como um projeto "de desenvolvimento econômico, assentado na industrialização e na soberania dos países latino-americanos". Desdobra o desempenho brasileiro nas últimas décadas como um desempenho no qual a economia, as estruturas de produção, o comércio exterior e a propriedade do ativo produtivo caminharam no sentindo contrário ao projeto que animou o Brasil de 1930 a 1980.

Gonçalves, de forma rigorosa, mostra que houve redução na participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB). O Brasil perdeu participação no panorama industrial mundial. Mostra, de forma inequívoca, que o que cresce no país é o valor adicionado da mineração e da agropecuária. A política econômica foi orientada para a liberalização comercial, e o coeficiente de importações em relação ao consumo aparente cresceu de forma sistemática entre 2002 e 2010.

A participação dos manufaturados caiu no valor das exportações, e houve a queda assustadora da dos produtos altamente intensivos em tecnologia entre 2002 e 2010. Todas as indicações mostram aumento de dependência tecnológica. A diferença entre o valor de importações e bens intensivos em tecnologia, exportações brasileiras destes bens, evoluiu de US$ 19,3 bilhões em 2002 para US$ 85 bilhões em 2010.

São precárias nossas salvaguardas ante uma crise mundial que inexoravelmente produzirá mudanças
Houve uma dramática perda de competitividade internacional; aumentou a vulnerabilidade externa, houve concentração de capital e explosão da lucratividade dos bancos. A rentabilidade "lucro/patrimônio líquido" dos 50 maiores bancos no Brasil é de 17,5% ao ano entre 2003/10.

Enquanto isso, a rentabilidade das 500 maiores empresas industriais foi de 11% ao ano. Brasil e Turquia são os dois países que têm os mais elevados custos de dívida pública nas 24 principais economias do mundo. Nestes países, custo médio da dívida é de 4%, enquanto no Brasil é de 8,6%. A relação entre pagamento de juros de dívida pública e do PIB no Brasil apenas é superada pela Grécia, sendo que a média dos 24 países é 2%, enquanto que a brasileira é 51%. Quem quiser conhecer em detalhe, leia este artigo.

São corretas as advertências que os dirigentes da política econômica estão fazendo aos bancos privados, porém claramente insuficientes. O ministro Guido Mantega advertiu no Fundo Monetário Internacional (FMI) que "o Brasil fará de tudo para impedir" o ingresso de capital de curto prazo especulativo. Porém, anunciou que não descarta o controle de capitais voláteis. Isso se faz sem advertência. É correto baixar juros; aumentar a competição dos bancos públicos; barrar capitais do exterior que se nutrem no nosso juro excessivo; tocar para frente o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Porém, tudo isso chega a conta-gotas e de forma tímida. Em um cenário em que a crise mundial se desdobra na Europa, há redução do crescimento da China (o FMI advertiu que a alta das commodities será interrompida), não se deve cutucar a onça com vara curta. São precárias as salvaguardas brasileiras ante uma crise mundial que inexoravelmente produzirá mudança de sinal no balanço de pagamentos brasileiro. Há um discurso eufórico que desconhece vulnerabilidades. Nas palavras de Gonçalves: "É visível a crescente vulnerabilidade externa estrutural brasileira em função do aumento do passivo externo financeiro".

A Argentina expropriou a YPF. Luiz Carlos Bresser-Pereira publicou na "Folha de São Paulo", no dia 23, um brilhante artigo: "A Argentina tem razão". A mídia internacional chegou a falar "de um tribunal internacional". 62% dos argentinos apoiam a medida. O FMI declarou que a matéria é de soberania. Não mergulharei em detalhes sobre a escandalosa privatização da YPF feita pelo neoliberal Carlos Menem. É incrível nenhum tribunal internacional ter se pronunciado sobre a auditoria externa que "escandalosamente" subestimou (para baratear) o patrimônio estatal argentino. Bresser-Pereira mostra a competência do governo argentino nessa medida.

Diz: "Não faz sentido deixar sob o controle estrangeiro um setor estratégico para o desenvolvimento do país". Se a recuperação pela Argentina de um ativo estratégico gera tal reação, nós brasileiros deveríamos, de forma inequívoca, nos aliar ao país irmão. Argentina solicitou à Maria das Graças Foster, presidente da Petrobras, que o Brasil aumentasse sua participação na produção de petróleo na Argentina de 8% para 15% (a principal razão da expropriação foi a medíocre atuação da Repsol em produção de petróleo na Argentina). Além das óbvias implicações no balanço de pagamentos, a Argentina, um país de clima temperado, necessita manter suas residências aquecidas no inverno, lhe é vital aumentar sua disponibilidade energética. Desconheço detalhes, mas pelo menos uma empresa chinesa foi convocada pela Argentina. Nesta questão, o Brasil não deveria vacilar em apoiar o país irmão.

A política de outorga de lotes nas reservas brasileiras, e principalmente concessões no pré-sal, é para o Brasil um erro estratégico. Sei que durante o governo Lula e no atual o Brasil conseguiu colocar um brasileiro no 6º (ou 8º) lugar na lista de maiores fortunas mundiais. O interessante é que esse salto aconteceu sem a produção de nada, apenas metamorfoses patrimoniais consagradas pela valorização de ações do empreendedor vendidas a capitais internacionais. Faz um estranho contraponto com a correta elevação do poder de compra do salário mínimo real colocar uma fortuna brasileira baseada em valorização de lotes de petróleo no pódio dos grandes patrimônios individuais. Façamos votos para que no futuro não tenhamos que enfrentar a maldição de país primário-exportador de petróleo. Ainda é tempo para não expor a soberania de um país que, no Atlântico Sul, pode vir a ser "dono" da terceira maior reserva mundial de petróleo. Há enorme risco geopolítico nessa matéria.

Carlos Francisco Theodoro Machado Ribeiro de Lessa é professor emérito de economia brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES; escreve mensalmente às quartas-feiras. carlos-lessa@oi.com.br

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O QUARTO PODER NA DEFENSIVA OU QUE PENSARIA POLICARPO


Por Zé LIns

A CPI do Cachoeira parece conter uma dose de nitroglicerina que as outras não tinham. Vale aqui uma breve recapitulação de CPIs clássicas. 

Começamos, obviamente, pela que detonou o “bólide” Collor de Mello, de maneira muito geral o conteúdo daquela Comissão era pautada pela indolência e incapacidade administrativa do “caçador de marajás”, soma-se a convergência de fatores como corrupção, incapacidade política das elites no pós-ditadura e a pressão crescente dos movimentos sociais.

O “Fora Collor” tinha conteúdo político e social apimentado, mas a pimenta que regrava era aquela altura um PT já bem próximo ao “status quo” e que de maneira geral cabia aos setores diversos das elites cederem anéis sobressalentes para não perder nem um quinhão do dedo mindinho.

O tal “caçador de maracujás” se foi para suas Alagoas e aquela nobre terra que já nos deu o inimaginável Graciliano, nos pariu também aquele fantástico exemplo de penumbra brasiliana. E assim a CPI do Collor acabou em arranjo necessário a sôfrega consolidação da transição “segura e gradual” da ditadura para o ciclo democrático brasileiro (os mais lidos sabem que Golbery do Couto e Silva foi maestro da permanente conciliação nacional, entre outros).

Alguns anos se passaram e nossa cronologia histórica continuou em seu ritmo acidentado e, em grande medida, conciliador com os poderosos e com os poderes do entretenimento. Em 1994 o próprio Collor acaba absolvido pelo STF e os 103 processos judiciais que respondia são comutados por um “nada consta”, o que desde sempre foi o exemplo mais eloquente dos limites das CPIs.

Desde então, as CPIs de maior repercussão no Congresso investigam temas comuns: corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e desvios de recursos públicos. Vai aí uma lista breve e com lacunas importantes: CPI dos Precatórios, CPI do Marka e FonteCindam, CPI dos Laboratórios Farmacêuticos, CPI do BANESTADO, CPI do Valerioduto e a carimbada CPI do Mensalão e muitas outras.

A questão diferencial entre essa CPI do Cachoeira e as demais está em um componente de grande odor e dor: o papel da mídia e do poder midiático na interação com os demais símbolos de virtudes e vícios republicanos. Vale reforçar a agonia litúrgica da “Carta Capital”, e endereçar aos poucos deputados independentes o apelo machadiano: “CONVOQUEM O POLICARPO”!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Emprego e renda em Belém: balanço de uma década


Por José Raimundo Trindade
Prof. do PPGE/UFPA e Coordenador do Grupo de Análise Fiscal da UFPA

O artigo jornalistico que segue foi publicado originalmente em "O Liberal" de 29/04/2012, p. A2.

Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar (PNAD) do IBGE e do Ministério do Trabalho, Emprego e Renda (MTE) fazemos neste texto breve balanço critico da evolução do mercado de trabalho de Belém, sob o ponto de vista das condições de emprego e renda, nos últimos dez anos, visualizando quais foram as principais alterações ocorridas no período.

Segundo o Censo de 2010, o município de Belém concentra 18,38% da população estadual, ou seja, 1,3 milhão de habitantes, sendo que desse total aproximadamente 60% (780 mil) refere-se a população economicamente ativa (PEA), ou seja, a parcela da população acima de 14 anos de idade que está apta ao exercício de qualquer atividade econômica laboral.

Na última década a economia de Belém aprofundou uma tendência já presente na década anterior: a perda de dinamicidade industrial para outros municípios, porém revertendo parcialmente o peso econômico via setor terciário, especialmente serviços especializados e um novo boom imobiliário centrado na capacidade comercial da cidade.

Vale observar com dados do Cadastro Geral de Emprego e Renda (CAGED) do MTE, que nos últimos dez anos o estoque de empregos evolui de aproximadamente 261 mil no ano 2000 para 357 mil em 2009, com uma taxa de crescimento médio de emprego de 3,57%, distribuídos em quatro segmentos principais: a administração pública que em 2000 respondia por quase 41% dos empregos formais; os serviços e comércio responsáveis no início da década por 46,52%  dos empregos; a indústria de transformação com uma participação de somente 5,63% e finalmente, a construção civil com 4,70% do total. Em 2009 os setores de serviços e comércio já respondiam por 51,5% daquele total e a indústria de transformação tinha reduzido sua participação para somente 4,48% do total. Esses números aparentemente acompanham a tendência de aumento da importância do setor terciário nas economias urbanas nacional, porém às características de renda média recebida, assim como a precariedade das condições ocupacionais, ainda refletem um terciário pouco moderno e centrado em serviços de baixo valor agregado, além da progressiva diminuição do setor industrial em Belém.

O principal avanço registrado na década passada pode ser observados nos números referentes a ocupação estável, o que significa carteira de trabalho assinada. Em 2001 somente 16,18% da população ocupada em Belém dispunha desta garantia social mínima, sendo que durante a década houve uma paulatina melhora, acompanhando o ciclo de crescimento econômico ocorrido no período, de tal forma que em 2009 cerca de 25,88% da população ocupada apresentava registro em carteira.

A renda média da população ocupada em Belém também apresentou uma leve melhora ao longo do período, evoluindo de R$ 309,00 em 2001 para R$ 594,00 em 2009, porém 38,4% da população ainda vivia, segundo o Censo 2010,  com rendimento mensal inferior a meio salário mínimo. Esse quadro de baixa renda se reflete em outros aspectos, como por exemplo, a elevada carga horária de trabalho diária, necessária para suprir o mínimo de renda necessário a sobrevivência. Segundo a Pesquisa Nacional de Amostragem Domiciliar (PNAD), em 2009, mais de 65% da população ocupada trabalhava acima das 40 horas semanais, sendo que mais de 15% da população ocupada em Belém tinha que trabalhar mais que 50 horas semanais para poder obter o mínimo de renda necessária.

O quadro acima reflete, por um lado, uma relativa melhora na oferta de empregos ao longo da década, especialmente o positivo aspecto de elevação do grau de formalidade empregatícia. Entretanto, mantém-se a característica de empregos de baixa remuneração e precária qualidade, reflexo em grande medida de uma economia de baixo valor agregado e ainda fortemente dependente da informalidade e dos serviços de baixa qualificação.  

terça-feira, 27 de março de 2012

Retorno com o "Café Econômico"

Prezados amigos, estivemos durante as últimas semanas distante das Redes Sociais, o Proposta Democrática retorna para o debate e luta pela democratização radical da sociedade brasileira e paraense. Aproveitamos para divulgar o debate que realizaremos no já conhecido Seminário do Programa de Pós-graduação em Economia "Café Econômico".

Nesta quinta apresento no Auditório do ICSA artigo que publiquei, juntamente com o Wesley Oliveira, no "Novos Cadernos do NAEA", o qual trata do processo de primarização das exportações brasileiras e, especificamente, o papel da Amazônia neste cenário. Segue o link da Revista Novos Cadernos do NAEA para leitura do referido artigo.


sábado, 10 de março de 2012

Universidade e Inconformidade


Recentemente a Pró-reitoria de Graduação da Universidade Federal do Pará ofertou  edital para projetos de Monitoria. O Instituto de Ciências Sociais Aplicadas apresentou somente três projetos.  Seja qual for o motivo, mas isso já demonstra problemas que não são somente das Ciências Sociais Aplicadas, e sim de toda nossa Universidade, quanto à formulação de projetos.

A surpresa é que os “selecionadores” aprovaram dessa pobre miséria uma miséria ainda maior: selecionaram um único projeto. A questão não está somente na qualidade, está na incapacidade de mesmo entre nós, pobres miseráveis da periferia, não conseguirmos visualizar pontos de apoio.

O que interessa em última instância é a competição, pura e simples, como os manuais “fantásticos” da economia estabelecem. De outro modo não há como pensar ou lidar com o sudeste ou sul brasileiro, se as razões ou condicionantes internos são os mesmos,  como tratar o exterior de forma diferente, não há solidariedade entre nós, porque queremos que os externos tenham solidariedade com a nossa miséria: não devem e não terão, e isso tudo nós entendemos e replicamos: o que interessa é a competição e o compadrio. NÃO É ISSO SENHORES!

A análise de critérios nos parece imprescindível, mesmo que, de algum modo, os critérios de repartição equânime entre setores sejam ou devam ser utilizados: isso senão toda a diferença é justificável e não tem porque  ficarmos alegando problemas federativos ou aspectos de cotas. 

Muito estranho uma Universidade que defenda cota e internamente faz, sempre, seleção adversa.

Obviamente quero que os  critérios e as avaliações sejam socializadas:  transparência é fundamental. 

Fundamental, não é Sr. Reitor, que às avaliações aprovadas, assim como os motivos de reprovação sejam socializadas!


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Casal de extrativistas assassinado no Pará recebe prêmio da ONU por defesa da floresta




Extrativistas, José Claudio e Maria eram incansáveis nas denúncias de desmatamento e grilagem no assentamento Praia Alta Piranheira, onde moravam. A atuação política contundente custou-lhes suas vidas. Hoje Laísa, irmã de Maria, está em Nova York para participar da cerimônia de encerramento do Ano Internacional das Florestas, na sede da Organização das Nações Unidas. Ela receberá um prêmio especial, um reconhecimento da luta de José Claudio e Maria para preservar a floresta.




Por Maíra Kubík Mano da Carta Maior

O olhar de Laísa é impactante. Carrega uma tristeza que não parece estar perto de terminar. Com uma voz calma, ela comenta as últimas ameaças que recebeu. “Uma menina perguntou para a minha filha que tipo de transporte eu iria usar para viajar. E a minha filha respondeu que de moto. E ela disse: ‘eu vou fazer um pedido e tu fala para a tua mãe. Pede para ela não ir de moto, pelo menos dessa vez. Quem avisa amigo é’”.

Laísa Santos Sampaio é irmã de Maria do Espírito Santo, que em 24 de maio de 2011 foi morta ao lado de seu marido, José Claudio Ribeiro da Silva, no município de Nova Ipixuna (PA). Eles sofreram uma emboscada de dois pistoleiros justamente quando iam de moto para a cidade.

Extrativistas, José Claudio e Maria eram incansáveis nas denúncias de desmatamento e grilagem no assentamento Praia Alta Piranheira, onde moravam. A atuação política contundente custou-lhes suas vidas.

Hoje Laísa está em Nova York para participar da cerimônia de encerramento do Ano Internacional das Florestas, na sede da Organização das Nações Unidas. “Menina, está um frio aqui”, diz, simpática.

Laísa receberá um prêmio especial, um reconhecimento da luta de José Claudio e Maria para preservar a floresta. “É uma grande responsabilidade falar em nome de pessoas tão importantes, que defenderam uma causa tão importante. Eu estou no compromisso de representar esses heróis. Não só Maria e Zé Claudio, mas muitos outros. Lembrar o que eles fizeram é também um compromisso comigo mesma, é cumprir com a minha parte. Na hora que eu recebi o telefone da ONU, eu fiquei emocionada por eles. Pensei: ‘imagina se eles estivessem vivos!’ É um reconhecimento que eles não tiveram a oportunidade. São pessoas que não foram valorizadas pelos governos”, comenta.

A viagem aos Estados Unidos surgiu a partir do filme “Toxic Amazon”, dirigido pelo brasileiro Felipe Milanez e o mexicano Bernardo Loyola, que tem como fio condutor a história da morte do casal. A ONU convidou Milanez para exibir trechos do documentário na cerimônia e ofereceu o prêmio especial. O jornalista indicou então Laísa para receber a homenagem. Em poucos dias, ela teve que tirar seu primeiro passaporte e – o mais difícil – um visto americano.

Outro brasileiro, o ambientalista Paulo Adário, do Greenpeace, receberá o prêmio de “herói da floresta” por sua atuação na América Latina. Cada região do mundo terá um contemplado: na África, será Paul Nzegha Mzeka, de Camarões; na Ásia, Shigeatsu Hatakeyama, do Japão; na Europa, Anatoly Lebedev, da Rússia; e dos Estados Unidos, Rhiannon Tomtishen and Madison Vorva, pela América do Norte.

Mulheres

Na ONU, Laísa quer contar a história do assentamento e como é possível viver do extrativismo. “Nós aprendemos a usar a floresta com ela continuando em pé. A floresta não é intocável, mas é economicamente viável”, defende.

Ela participa de um grupo de mulheres que se reúne aos finais de semana para produzir óleo de andiroba, utilizado em cosméticos e hidratantes.

Sua irmã Maria foi a mentora do projeto. “Em 2006 ela buscou formação para nós. Ela reuniu todo mundo e descobrimos como fazer o manejo e o potencial da andiroba”. Laísa pretende profissionalizar mais a produção e obter autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para comercializá-la.

“O problema é que nós não temos políticas públicas para fortalecer a produção. Não existe crédito para quem vive da floresta. Temos 80% de floresta em nosso lote e não conseguimos crédito para trabalhar. Existe crédito para criar gado, mas não para a floresta”, critica.

Ameaças

O projeto ficou um pouco parado com a morte da irmã. Logo depois do crime, ela se mudou temporariamente para a casa de parentes em Marabá. Desde o início de 2012, porém, Laísa retornou ao assentamento e às suas atividades. Voltou a dar aulas na escola local onde é professora.

“Nós pedimos um posto policial lá dentro para inibir as ações ilegais. Tendo um posto lá, o caminhão não ia sair carregado de castanhais. E intimidava aqueles que estão prontos para matar. Depois dos assassinatos, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) fechou madeireiras, mas em Nova Ipixuna a maioria das madeireiras já está funcionando. Faz 8 meses que eles morreram e nada foi feito”, denuncia Laísa.

“A retirada da madeira está tímida, não está intensa como era antes. Acho que eles estão dando um tempo. Agora as carvoeiras, quase todas que funcionavam estão funcionando. O carvoeiro vem levando tudo, fica aquele deserto”, lamenta. Segundo levantamento feito pela família do casal, existem cerca de 100 fornos de carvão em funcionamento no assentamento.

“Até janeiro eu falava que estava ameaçada. Agora eu sinto na pele. Cada vez que eu saio na imprensa, conquisto mais a antipatia daqueles que estão me vendo como dedo-duro”.

Ela relata alguns casos: “Um menino estranho perguntou para o meu filho se a porteira da nossa casa ficava aberta ou fechada à noite. Outro dia, antes de ir para Nova York, uma criança de uns 14 anos entrou na escola, parou e ficou me olhando em pé, na porta, perto do quadro. Quando eu disse ‘oi’ para ele, ele saiu correndo e subiu numa moto onde estava um senhor”.

Ainda no mesmo tom de voz, Laísa fala sobre seu encontro com Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, antes de embarcar para Nova York. “Ele falou de fazer o possível para que tenhamos um encontro com a Dilma”. O que ela falaria para a presidenta? “Eu diria, de imediato: ‘eu quero viver’”.